Mídia golpista? Como assim?
- Léo Mackellene
- 1 de abr. de 2016
- 3 min de leitura
Hoje, completam-se 52 anos do Golpe que mergulhou o país numa Ditadura Militar que durou 21 anos. A mídia foi crucial naquele momento como forma de consolidar o golpe e gerar na população a sensação de que aquele era o melhor caminho a se tomar. Não foi a única vez!
A comunicação de grande alcance, a chamada “comunicação de massa”, começou no Brasil com o rádio. Em 1935, o programa Repórter Esso era o mais influente do país. Financiado pela empressa americana Standart Oil (a Esso) – por isso o nome “Repórter Esso” – e produzido pela agência de notícias também americana United Press International, esse programa tinha como diretriz abafar a campanha “O Petróleo é nosso!”, já que a criação da Petrobrás não interessava ao governo americano nem à Esso.
Assis Chateaubriand, o primeiro magnata das telecomunicações no Brasil, chegou mesmo a dizer que “jornal, rádio e TV, no Brasil, são um instrumento político”.
Getúlio Vargas, por exemplo, foi acusado pelos jornais da década de 50 de ser “o maior corrupto da história do Brasil”, além de chamarem-no de POPULISTA. Dentre outras, as ações que deram a ele esse adjetivo foram: a criação do Ministério do Trabalho, da Previdência Social, do Salário Mínimo, da Carteira de Trabalho, da CLT (a Consolidação das Leis Trabalhistas), da Justiça do Trabalho, como órgão fiscalizador, e a instituição do voto feminino, que não havia até então, além da criação das principais empresas estatais: os Correios, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Vale do Rio Doce – que foi vendida pelo governo FHC num escândalo que até hoje não foi apurado (a empresa valia 92 bilhões e foi vendida por 3,3 bilhões) –, o BNDES e, claro, a maior empresa estatal e até hoje disputada: a Petrobrás.
Caluniado pelos jornais, e sem outros canais de comunicação para apresentar sua defesa (como hoje temos a internet), no dia 23 de agosto de 1954, Getúlio Vargas renunciou.
O principal opositor de Getúlio, no entanto, não era um político, era o jornalista Carlos Lacerda. Na noite do dia em que Getúlio renunciou, Lacerda foi à rádio Globo: “Meus amigos, cedo as minhas palavras para realçar o extraordinário papel que a Rádio Globo, a serviço da imprensa falada, da verdade e da justiça, desempenhou nesta revolução branca que hoje tem a sua noite de glória”. Na manhã do dia seguinte, o presidente Getúlio Vargas, o homem que criou a Petrobrás, caluniado e sem chance de defesa, atira contra o próprio peito e, como diz em sua carta-testamento, “sai da vida para entrar na História”.
No golpe de 1964, não foi diferente. João Goulart, o Jango, tinha apoio popular maciço e prometia fazer as reformas de base que, havia séculos, a população ansiava. Dentre elas, as principais eram a reforma agrá-ria e as reformas trabalhistas, com a inclusão, por exemplo, do 13º salário. Claro que os grandes latifundiários e grandes industriais de São Paulo não gostaram nadinha disso.
Ademar de Barros, governador de São Paulo, foi à TV Tupi (que depois se transformaria na TV Globo) discursar: “nós, que temos por padroeira Nossa Senhora da Conceição Aparecida, reafirmamos a nossa fé cristã e o nosso propósito inabalável de enviar os maiores esforços no sentido de garantir à família, à sociedade e aos trabalhadores o direito às liberdades fundamentais”. Ele falava do Golpe Militar que instalaria uma Ditadura que duraria 21 anos, cassando direitos civis, caçando civis, desaparecendo com eles, alguns para sempre, tolhendo liberdades individuais, proibindo a liberdade de expressão etc. Na televisão, bem como nos jornais de grande circulação, em troca de concessões de funcionamento e outros privilégios, os jornais só veiculavam notícias positivas sobre o Brasil.
Léo Mackellene é mestre em “Literatura e Práticas sociais” pela Universidade de Brasília (UnB). Professor de Argumentação jurídica no curso de Direito e Editor de Publicações da Faculdade Luciano Feijão (FLF), em Sobral-CE. Escritor membro da Academia de Letras e Artes do Nordeste (ALANE). Autor de nove livros, dentre eles o romance Como gota de óleo na superfície da água (Radiadora, 2017). E-mail: leomackellene@gmail.com
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