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Nós; colonizados.

  • 2 de fev. de 2020
  • 3 min de leitura

Ontem, quando eu cheguei em casa, assisti a um daqueles vídeos tipo Britain's got more talent. São tipo aqueles programas The Voice, só que numa superprodução e tal, num teatro gigante lotadíssimo. A versão mais conhecida mundialmente chama-se X-Factor. Enfim, é um programa de calouros onde pessoas desconhecidas vão apresentar algum número que saibam fazer, vão cantar, dançar... mostrar algum talento que porventura tenham.

Ver os jurados e as pessoas se emocionando com um simples canto de uma criança que vai lá ou de um vendedor de celular que canta bem uma ópera profetizando que vai vencer, apesar da dor que sente, ou de uma senhora aposentada (tipo a Susan Boyle, lembra?) mexeu comigo de um jeito muito profundo... Porque aqui, no Brasil, nós fazemos programas pra rir da gente mesmo... tipo “Ídolos”, sabe? Rir de quem nós somos, do nosso povo, das pessoas (ditas) mais simples, mais humildes... Da maneira como nós falamos, como nos vestimos, como andamos, o que comemos, o que deixamos de comer porque não podemos pagar... Programas que exploram e expõem o que de pior há em nós, dentro do padrão que sei-lá-quem estabeleceu como “modelo”.

Não temos o direito de sonhar, de celebrar nosso povo através de nossa arte? Onde estão nossos museus? Fechados ou pegaram fogo! Onde estão nossas bibliotecas? O rio encheu e levou embora os livros. Onde estão nossos artistas? Pendurando sorrisos de lata em stories do Instagram. Não temos o direito sequer de celebrar quem somos! Quanto mais parecidos conosco, mais ridículos parecemos. Quanto mais parecidos com eles, mais glamour e status imaginamos alcançar... E eles mesmos, mesmo assim, ainda se riem de nós, coitados, pobres bruzundanguenses.

Somos mesmo caboclos querendo ser ingleses, como cantava Cazuza.

Nossa língua é considerada um dialeto feio e pobre... corruptela do português, um país da Europa que não é nem considerado europeu por boa parte da comunidade europeia. Nós, brasileiros, vivemos sovinando migalhas, atropelando pedestres na faixa e fugindo sem prestar socorro e achando isso o máximo, símbolo-síndrome da “malandragem”. Quero ir embora desse lugar, essa colônia mesquinha que exige tudo e não dá nada! Com essa elite que só consegue se manter no poder porque tem um punhado de militares corruptos e coniventes com a barbárie, e mais um punhado de canais de televisão, rádio, revistas e jornais... "Terra devastada! Povo escravizado!", como diz uma amiga. Essa identidade moldada pela novela das nove ou pelos BBBs da vida, comemorando a expulsão de um machista de um reality show qualquer enquanto coloca outro pior ainda na Presidência da República.

Brasil e suas contradições, povo que não se dá valor!

De 1997 a 2003, atuei nos movimentos sociais intensamente, apanhando na rua, conversando com as pessoas, escrevendo e publicando panfletos, organizando eventos, participando de assembleias, organizando grupos de debate e discussão sobre a realidade, reunindo adolescentes pra publicar jornais comunitários, pensando e intervindo nas comunidades... arte, poesia, política, filosofia...

Escrevi poemas sobre revolução e os li em praça pública, pátio das escolas, concha-acústica, gritei os versos da janela da minha casa pra rua... cantei em festivais de cultura, em protestos de rua...

Depois mudei de fronte, por entender que a sala de aula é o ambiente revolucionário por excelência… por acreditar verdadeiramente na educação como ferramenta de transformação da realidade... trabalhei com formação de leitores, professores, escritores... ajudei a fundar escolas, projetos sociais, startei processos em cadeia de mudança de paradigma sobre livros, sobre arte, cultura… de mudança de paradigma sobre a língua em que a gente sonha, pensa e ama… ensinando que um povo que respeita sua língua é um povo que respeita a si próprio. E não, não falamos língua portuguesa. É outra coisa! Coordenei e co-coordenei projetos de resgate cultural e da auto-estima de agricultores, pescadores, cozinheiras, professores, pessoas que não sabiam escrever, que não podiam ler...

Divulguei o quanto pude a música, a literatura, a poesia, a arte dos meus companheiros de estrada, de gente que nunca me conheceu, de gente que muitos não conheciam, de gente que já me ameaçou de morte por conta de política e que mesmo assim eu admiro como artista...

Mas agora estou sem fôlego. Precisando dar um tempo. Mas não estou desistindo, eu só estou sem fôlego... vou ali tomar um ar.

“Preste atenção, meu bem, retorne ao seu centro. A única saída é pra dentro”.

 
 
 

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