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O Programa Petrobrás Cultural 2007 e a História da Literatura Brasileira

  • 25 de jun. de 2025
  • 20 min de leitura

A Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) acontece desde 2003. Pelo 2º ano consecutivo, o crítico literário Ewerton Ulysses Cardoso, fundador da revista O Odissseu, se pergunta "Onde estão os autores Nordestinos na FLIP?". É uma discussão antiga. Publicado há quase 20 anos na Cronópios, antigo portal literário editado por Edson Cruz e o saudoso Pipol, o presente artigo vem discutindo a influência direta do desenvolvimento econômico desigual e regionalizado do país sobre a constituição do cânone literário e, consequentemente, sobre a própria História da Literatura Brasileira.




É preciso re-escrever a História da Literatura Brasileira, a passada e a atual.

 

  

Na página 8 do Caderno Vida&Arte do Jornal OPovo (CE) do dia 14 de julho de 2007, um sábado, certo "escritor" e professor de Literatura hoje “erradicado” (graças a Deus!) daqui [do Ceará] nas paragens do Sul, mas em tempos idos professor na UFC, onde eu cursava Letras, publicou uma resenha que me espantou deveras. Primeiro por conta da sua torrente verborrágica que parece ter dado uma trégua; torrente com a qual eu estava acostumado em seus escritos. Digo "estava" porque dei de cara com uma resenha mais ou menos enxuta e menos, bem menos academiquinha. Ponto para ele, não fosse em determinado momento do texto ler-se

 

(...) uma esfera cruel acontece no Brasil: muitos livros, muitas feirinhas, muita festinha, muita panelinha cretina, muita política de poder e ingerência do dinheiro público sempre num mesmo lugar e sem distância, e quase nenhuma literatura de risco.

 

Causou-me estranheza pelo fato de ser, esse meu "colega", partícipe de uma das instituições que no Plano da Cultura Cearense (PCC) mais soube fazer "feirinhas, festinhas, muita panelinha cretina, muita política de poder e ingerência do dinheiro público".

 

Discussão válida, inclusive, porque neste exato momento escritores, intelectuais e artistas de todo o país estão, num dos sites de literatura mais importantes do país (www.cronopios.com.br), discutindo sobre o que foi a “premiação” dos editais do Programa Petrobrás Cultural 2007, onde se vê (ali sim) "muita política de poder e ingerência do dinheiro público sempre num mesmo lugar" privilegiando adivinhem que regiões do país? Vamos! Não é difícil advinhar! rs

 

Ícone da inteligência cearense (na verdade, ele é parnaibano; piauiense, portanto), quiçá brasileira, quiçá latina, quiçá universal (chega!!!), este senhor me causou estranheza com o que disse justamente porque ele mesmo faz parte da trupe dos responsáveis pela expulsão do Grande e hoje semi-vazio Elefante Branco, através de “muita panelinha cretina” e “muita política de poder”, daquele que teve a coragem de reunir poetas de todas as gerações, gêneros, etnias e classes sociais possíveis nas noites de sábado no Palco sob a Passarela para ouvir e ler poesia.

 

Causou-me espanto o que este senhor disse, por ter sido a sua trupe mesmo responsável pelo “afastamento” de mais de dois anos daquele que é para nós, da novíssima geração da poesia cearense, ícone de libertação, de luta contra a hegemonia acadêmica e a elite cultural não só no Ceará, mas no país inteiro; por ter censurado aquele, que para nós é tão caro; tentado imobilizar aquele que foi deposto de seu cargo (mas não se eximiu de seu papel); desejado silenciar aquele que teve tomado de si seu posto, sua sala, suas ferramentas de trabalho, como o foi um certo Sade séculos atrás, pelo sadismo d’outros senhores iguais aos da trupe em questão; tem tentado sovinar (é essa palavra mesmo!!!) espaço e recursos principalmente, àquele generoso e grandíloquo escritor, ouso dizer, visionário das letras de largo fôlego, criador de mitos e de teias que é o autor do apocalíptico Cachoeira das Eras.

 

“Quase nenhuma literatura de risco” causa-me maior espanto porque é um professor de literatura de uma Instituição de Ensino Superior que reproduz o que diz a capa do mais caro panfleto da indústria cultural do eixo Rio-Sul, a revista Bravo! de junho de 2007, referindo-se a Nelson Rodrigues, “Por que não temos mais um cronista como ele?”. No mínimo um descaramento; no máximo, o mais completo desconhecimento da literatura contemporânea produzida por aqui.

 

Conhecem, este senhor e a sua trupe, os dramaturgos da revista eletrônica Famigerado de Sobral, Ceará? Os ensaístas do Cronópios de São Paulo? Os vídeo-poetas da Corsário de Fortaleza? Os cronistas da Iararana de Salvador? Os poetas da Hera de Feira de Santana? Os contistas da Polichinello  de Belém, da Caos Portátil de Fortaleza? Da Só para mamíferos? Tudo bem, são de longe, mas... e os poetas e contistas das independentes Bagatelas do Rio de Janeiro e Não Funciona de São Paulo? Os poetas da Literapia, da Gazua? Ou mesmo da piauiense Acrobata? Parece que não. É fácil reconhecer algum membro da sua trupe, suas resenhas são sempre sobre obras e autores estrangeiros, confundindo "falar bem" com "falar difícil", de preferência citando Deleuze ou Agamben!

 

Conhece ele o Noite Verde do bahiano Trazíbulo Henrique Pardo Casas? O Livro estranho de Oscar de Oliveira Magalhães, do início do século XX, da Serra de Ibiapaba? O sol e a maldição de Nuno Gonçalves? O olho de tebas de José Leite Netto? O Chão visitado de Ivaldo Ribeiro Filho? O Vermelho de Henrique Beltrão? O Fábulas Perversas de Dimas Carvalho, de Acaraú? O Brenhas da paraibana Tânia Lima? O Angústias, Álcool e cheiro de cigarro de Alan Mendonça? O Dulcinéia em Hollywood de Cherlanyo Barros, de Itapiúna, este Moreira Campos moderno e enxuto? O Beber água é tomar banho por dentro de Luciano Bonfim, de Crateús? E mais centenas de autores nada conhecidos nacionalmente? E por que pouco conhecidos?

 

Uma das respostas: porque em todo lugar, e sempre, desde Lima Barreto e muito antes dele, houve uma esfera cruel no Brasil: “muitas feirinhas, muita festinha, muita panelinha cretina, muita política de poder e ingerência do dinheiro público sempre num mesmo lugar”, da qual só participam os “canonizados” por coletâneas como a publicada pela PubliFolha em 2005Literatura Brasileira Hoje de Manuel da Costa Pinto, onde aparecem 60 escritores, sendo 43 do eixo Rio-Sul. Qualquer semelhança com o resultado do edital do Programa Petrobrás Cultural 2007 não é mera coincidência.

 

Para nós, cearenses, desde a Semana de 22, reconhecidamente o marco da Poesia Modernista Brasileira, que para nós começou em 1892, com a Padaria Espiritual. Simbólico que eles tenham um Mário de Andrade e nós o Mário de Andrade “do Norte”, como nos lembra o maior pesquisador de literatura ainda vivo hoje no Ceará, o professor Sânzio de Azevedo, aluno do nacionalmente renomado Afrânio Coutinho −por que não o Sânzio?

 

Para nós, nordestinos, desde a mudança do pólo econômico e político do país em meados do século XIX, da cana-de-açúcar nordestina para o café e as minas do sudeste e as consequências disso para a cultura: da Escola de Recife, onde figuravam iniciadores do pensamento brasileiro como Capistrano de Abreu, Silvio Romero, Edison Carneiro, Franklin Távora, Farias Brito, Tobias Barreto, Joaquim Nabuco etc, para a Semana de 22, financiada pela nova Indústria Cafeeira de São Paulo e pelos criadores de gado de Minas, que tinham (e ainda têm) o interesse de mudar o foco da pesquisa científica e acadêmica neste país; que tinham (e ainda têm) interesse em demonstrar-se superior nesse jogo de vaidades, de poder, que divide o país entre “sulistas” e “nortistas”, dando a estes últimos a pejorativa alcunha de “paraíbas cabeças chatas”. Não sendo à toa que os poetas ícones do modernismo sejam paulistas e mineiros: Mário de Andrade, Oswald de Andrade e Carlos Drummond de Andrade... Então por que a surpresa pelo resultado do Programa Petrobrás de Cultura 2007?

                                                                                        

Já sabíamos que dos inscritos (423), os 23 que seriam contemplados, seriam de São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e do mais novo estado a compor a região sudeste, a Bahia (começaram até a imitar o sotaque). A surpresa ficou em terem contemplado alguém do Distrito Federal (algo mais do que afinidades afetivas?).

 

Faço minhas as palavras dos editores da Cronópios “Pode-se argumentar que qualidade literária não tem geografia, mas estranhamos que não haja textos relevantes em outras regiões. E a questão fica mais estranha ainda quando vemos que a comissão de seleção foi composta por cinco membros dos respectivos estados: RS, MG, RJ, PR e SP”. Estranha não! Não para nós. Conhecemos isso há muito tempo já.

 

O senhor que escreveu a infeliz resenha deixa de ser, aqui, ele mesmo para ser o símbolo desse cânone excludente que sempre imperou nas letras de nosso país, penalizando criadores de outras paragens que não fossem do Eixo. Como surge a Academia Brasileira de Letras? No que ela se transforma? Quem são seus membros? De onde eles são?

 

O que assistimos agora em relação não só ao PPC, mas à Funarte e à Lei Rouanet, como dito no café cronópios, é apenas mais um sintoma das relações de poder que se escondem atrás das sutilezas do processo seletivo (e seleto) dos editais e vêm desaguar em algo muito mais nocivo para o pensamento brasileiro: aos pés da deusa Clio, essas relações de poder acadêmicas, diga-se de passagem, vêm influir no próprio Cânone Literário e, consequentemente, na própria constituição da História da Literatura Brasileira.

 

Como assim? Eu explico.

 

No ensino básico e mesmo nos cursos de letras, estudamos disciplinas que levam o nome de Literatura ou algo do gênero, mas que de estudos literários têm pouco ou quase nada. Estudamos, quando muito, a História da Literatura com seu punhado de autores catalogados por Escolas Literárias, com a listagem de suas obras-primas reconhecidas pelo cânone e a biografia pormenorizada destes autores consagrados (por quem?).

 

Mas quem são esses que realizam o cânone? Sob que perspectiva teórica eles foram compilados, organizados, selecionados? Como e onde contribuem para a construção, no plano da cultura, de um povo? E mais: quem faz essa seleção? E segundo que critérios pretensamente neutros mas humanamente pessoais? Quem e como se decide quais os autores a permanecer? A história? Mas a história não é uma entidade viva e existente por si só, separada dos homens que a estão fazendo ou que interpretam momentos históricos precedentes. Qual é o filtro do cânone? Quem é o responsável por decidir o que é bom e o que é ruim?

 

As reflexões de Sérgio Buarque de Holanda, em seu Raízes do Brasil, e de Lima Barreto, em Os Bruzundangas, por exemplo, sobre a formação da cultura, da intelectualidade e dos literatos brasileiros, enchem qualquer pesquisador mais sério dessas e de outras dúvidas.

 

Sérgio Buarque de Holanda (1998) nos fala de uma instituição que teria instigado no seio da sociedade brasileira a vaidade, sobre a qual a academia, os órgãos públicos, os religiosos e a própria maneira de relação entre os indivíduos têm se construído no Brasil. Essa instituição de que ele nos fala é, por assim dizer, uma “cultura da personalidade”, em que o valor de um indivíduo é dado à medida que ele “não precise dos demais, não necessite de ninguém (...), se baste” (p. 32). Cada qual sendo assim “filho de si mesmo, de seu esforço próprio, de suas virtudes...” (p. 32). Isso teria gerado, dentre outras conseqüências, uma sociedade de barões, com privilégios hereditários, competições individuais e, por conseqüência, uma sociedade hierarquizada da violência doméstica passional (institucionalizada pela cultura machista que temos) à falta de coesão social sustentada pelo prestígio de que pode gozar não só um indivíduo em relação a outro, mas uma região em detrimento da outra. Daí o desastroso resultado do Programa Petrobrás de Cultura 2007.

 

E, em se tratando de uma ex-colônia que ainda vê no colonizador um exemplo a ser seguido, um modelo a ser copiado, ao contrário de colônias mais ao norte da América, que ridicularizaram e ridicularizam ainda hoje seu colonizador; em se tratando de uma colônia que vê na Europa o paraíso terreno, como os samoiedas de Lima Barreto, a coisa fica pior.

 

Como confiar no cânone se a crítica literária tem sido “fechada em preconceitos acadêmicos, olhando pro Brasil através da Europa, escrevendo uma língua que se falava em Portugal, mas não mais aqui” (ATAÍDE apud LIMA, 1974, p. 82)? Quem nos lembra é Jorge de Lima, poeta alagoano, autor geralmente reconhecido pelo seu poema menor Nega Fulô, esquecidos de seu monumental Invenção de Orpheu, de seu profético Anunciação e Encontro de Mira-Celi, em seu ensaio Todos cantam sua terra...

 

A teoria literária vangloria-se de ter acumulado, desde Platão e sua República, um instrumental, um arcabouço teórico significativo. Ferramentas com as quais julga-se capaz de decidir tais questões segundo critérios cientificíssimos, e, portanto, neutros, sobre as obras literárias. Talvez os mesmos que a banca examinadora dos projetos do PPC 2007 tenham utilizado, quem sabe!?

 

Em artigos e ensaios anteriores, inclusive publicados em Cronópios, tenho partido do pressuposto de que em Ciências, principalmente em Ciências Humanas, já demonstrado por Michel Foucault, os conceitos e definições alcançados pela discussão e pelo debate das idéias são montados a partir de discursos e, por tudo, são arquiteturas retóricas, jogos lógicos, argumentos que visam tão somente justificar tais ou tais análises e julgamentos que em verdade são percepções sobre o mundo, sobre o homem e suas manifestações psíquicas e culturais e não critérios científicos segurissíssimos para a ação da crítica e da teoria literárias, ou das bancas examinadoras de projetos para contemplação em editais.

 

Numa sociedade como a nossa, onde o acadêmico ainda goza de certo prestígio social, principalmente se ele parecer sisudo e usar óculos, e onde a academia ainda se baseia no falido “argumento de autoridade” tal condição é capaz de influenciar não só o resultado de editais de financiamento de projetos, mas também nas decisões do próprio cânone e, mais seriamente, na constituição da própria História da Literatura.

 

A tradição historicista tende a organizar cronologicamente a literatura através do que ela chama de Escolas Literárias e, embora faça ressalvas a respeito do caráter meramente didático de tal divisão, a teoria das escolas literárias parece (porque tem sido tratada assim) algo já estabelecido e, portanto, inquestionável. Mas esse é um argumento tão cínico quanto o que defende o estudo da literatura portuguesa nas academias brasileiras, incluindo a UFC, em detrimento do espaço que rouba das literaturas locais (cearense, no caso), quando se diz da “continuidade” da literatura brasileira em relação à portuguesa. “A nossa literatura vem de lá” é a resposta mais imediata. Como se houvesse Portugal em Vidas Secas. Como se houvesse Península Ibérica em A Bagaceira. Como se houvesse Europa em O cortiço que não fosse um Jerônimo abrasileirado, modificado pelos cheiros e temperos do Brasil. Como se essas e outras obras não tivessem sentido por si só, sem a interferência da literatura europeia, que pretensamente se auto-intitula Literatura Universal. Como se essas obras só pudessem ser entendidas à luz do estudo da Literatura de um Eça de Queirós, um Camilo Castelo Branco, um Cesário Verde, um Fernando Pessoa, um Mário de Sá-Carneiro, um Miguel Torga, um Saramago.

 

Esse pensamento advindo de uma noção claramente historicista reflete mais ainda, nas palavras de Tristão de Ataíde, o “preconceito acadêmico” do cânone. Essa forma de pensar a literatura mostra de como a visão de teóricos como Afrânio Coutinho que, apesar de seus questionamentos sobre o nativismo literário e o nascimento da literatura brasileira e de apontar a necessidade de se criar uma linguagem nacional, insistem em dar à história da literatura brasileira feições que a ponham em sintonia com a história da literatura da európolis.

 

Diatahy, em O pensamento Brasileiro de Clássicos Cearenses, nos diz na introdução que “não existe pensamento universal, visto todo conhecimento ser local e construído em dado horizonte histórico (...) exceto por abstração e em decorrência da produção social de sentido imposta por dispositivos de poder” (2006, p. 07).

 

Essa condição de submissão teórica aos modelos europeus, mais prestigiados, se repete inclusive em esferas menores: dentro do país: a literatura produzida no chamado eixo Rio-Sul (Rio de Janeiro-São Paulo-Minas Gerais-Rio Grande do Sul) recebe sem maiores problemas a alcunha de “Literatura Brasileira”, o que não ocorre com as literaturas produzidas fora desse Eixo, freqüentemente chamadas de “regionais”.

 

Parafraseando Diatahy, como justificar, de outra forma, que um livro escrito por um paulista ou carioca seja “nacional” e que outro escrito por alguém de outra região do país, não pertencente ao eixo dominante, seja considerado “provincial”?

 

Entendo que a História da Literatura estudada nas academias e nas escolas é organizada segundo uma corrente de pensamento pré-estruturalista que se denomina Historicismo, e mais: que esse mesmo Historicismo, movimento cultural primordialmente ocidental (europeu, que se o diga) é nascido mesmo do comparativismo iluminista que surge da necessidade da burguesia recém rebelada na França de 1789 em entender-se, entender sua história e seu evolução, numa forma de surto nacionalista.

 

Entendo que o Historicismo teria nascido, portanto, como uma necessidade específica dessa nova controladora do poder: a burguesia, necessidade que hoje não mais se sustenta, pois como diz Ki-Zerbo, em seu História da África Negra (1972), quando trata dos movimentos de libertação do continente africano, a necessidade de compreensão e revalorização cultural de um povo (ou seja, o nacionalismo) só se mostra legítima quando serve a um povo que se encontra oprimido por outro(s) povo(s) − no caso da Europa, a burguesia que se encontrava “oprimida” pela aristocracia − no sentido de unir esse povo oprimido política e culturalmente para a luta contra o seu opressor comum.

 

O Historicismo teria sido legitimado, portanto, como forma de criar uma certa comunhão entre esses povos europeus oprimidos (a burguesia emergente e o camponês), comunhão essa que culminaria, anos mais tarde, na formação da União Européia, pois encontraria, em cada povo neogermânico e neolatino, traços comuns para forjar o que Renè Wellek chama de “uma unidade entre estes povos a fim de demonstrar sua origem comum”.

 

Quando o Historicismo, através do método comparativo, pretende encontrar essa unidade entre os povos colonizados e os povos colonizadores, no entanto, como parece ter acontecido com a teoria e a crítica literárias no Brasil, sincronizando e sintonizando movimentos e escolas brasileiras aos movimentos e às escolas d’além-Mar, essa “unidade forjada” não passa de uma excitação estéril que se torna álibi dos privilegiados, que recorrem ao mito da totalidade para fazerem esquecer as desigualdades reais e a dominação de um povo sobre outro.

 

Entendo, retomando o que disse há pouco, que a história da literatura estudada nas academias e nas escolas, organizada segundo uma corrente de pensamento pré-estruturalista que se denomina Historicismo, é nascida mesmo do comparativismo iluminista que surge da necessidade da burguesia recém rebelada na França de 1789 de entender-se, de entender sua história e sua evolução. Nasce, portanto, como uma necessidade específica que hoje não mais se sustenta.

 

Aqui no Brasil, o historicismo perde sua legitimidade porque tende a funcionar mais como mecanismo da manutenção da teoria acadêmica que entende, por exemplo, que o marco inicial da Literatura Modernista Brasileira seria a Semana de 22, em detrimento da Padaria Espiritual, acontecida quase trinta anos antes. Teremos assim a manifestação no plano acadêmico da mais genuína parcialidade que exerce o cânone sobre o estabelecimento da periodização da História da Literatura Brasileira.

 

Não se trata de uma questão apenas de data ou de lugar, como no caso do PPC não se trata apenas de uma questão de qualidade literária.

 

Tal corrente de pensamento, o Historicismo, ao chegar ao Brasil, engenhosamente é aproveitado pela teoria em duas figuras de extrema importância para a história do pensamento brasileiro: Antônio Cândido e, um pouco mais tarde, Afrânio Coutinho, que servem até hoje como ícones e quase-pontífices dos estudos literários, incluindo aqui os não diferentes Benedito Nunes, mais antigo, e Alfredo Bosi, mais recente.

 

Mas o Historicismo cumpriu sua função. Hoje, está superado. É reducionista hoje, quando é usado pela academia como método pleno de estudos sobre literatura, e não mais uma possibilidade de método. Assim, a História da Literatura, tal como se apresenta hoje, com sua atual seleção de autores e de obras mais importantes de cada Escola Literária, tende a se perpetuar como verdade hegemônica e absoluta sobre os estudantes: futuros teóricos e futuros participantes de bancas para avaliação de projetos em concursos e editais.

 

Mantendo, claro, seu devido valor, salvaguardado a certo tipo de concepção da literatura na academia, essa concepção historicista não pode, não deve, não tem força para manter-se suprema em relação a outras teorias e métodos, dentre eles, por exemplo, o Desconstrutivismo, que visa repensar epistemologicamente os rumos e as práticas científicas e teóricas. Devendo ser, o Historicismo, apenas uma disciplina dentro do programa de estudos dos cursos de Letras e não o método através do qual todas as disciplinas deverão ser estudadas.

 

Em verdade, o objeto de estudo da disciplina intitulada Literatura, tenha ela a especificação que tiver (brasileira, portuguesa, cearense, contemporânea, moderna, clássica etc), não deveria ser outro senão o próprio documento literário. Afinal, não existe melhor forma de estudar Machado de Assis, por exemplo, embora haja outras formas, não existe forma melhor de estudá-lo do que lendo sua literatura, lendo-a e discutindo sobre ela.

 

O historicismo não apresenta problemas apenas quanto à seleção do cânone, não. Também quanto à periodização, à divisão da História da literatura em Escolas Literárias.

 

A organização sistemática a que o historicismo relega a Literatura é fragilíssima. Sua ordem cronológica não se sustenta mesmo com uma simples olhadela mais atenta. Basta analisar as datas de publicação dos livros vinculados às escolas literárias que os historicistas chamam de Romantismo, Realismo, Naturalismo ou ainda, como Afrânio Coutinho prefere chamar, em seu Introdução à Literatura no Brasil, de pré-Modernismo ou mesmo pré-Romantismo.

 

A divisão cronológica entre escolas e períodos de desenvolvimento (gerações) de cada escola em particular é por assaz difícil. É que

 

Há representantes de uma geração que ultrapassam espiritualmente e tomam parte em outro grupo. Há figuras de transição; há os diletantes e marginais, que não se fixam ou evoluem, adaptando-se a grupos sucessivos; os retardatários, os que não pertencem a qualquer grupo, ou que se ligam a um grupo por identidade espiritual e estilística, mas que não é o da sua geração; e em cada grupo, há figuras maiores, bem representativas, e as secundárias que se ligam às principais de maneira descolorida, hesitante, incaracterística. (COUTINHO, 2001. p. 161-162)

 

A unidade do período (...) é produzida não por homogeneidade estilística, porém pelo predomino de certo estilo que determina o tom geral (...), o que não exclui a possibilidade de outros estilos no tempo, e (...) dificilmente uma obra se possa definir como totalmente pertencente a um estilo. (COUTINHO, s/d. p. 26).

 

Ora, comparemos as datas de publicação das obras destas tais escolas. A maior parte se encontra entre os anos de 50 e 90 do século XIX; apenas 40 anos; menos da média de vida entre os escritores mais representativos destas escolas[1]. Podemos, então, nos dar conta do ambiente caótico em que viveram estes homens.

 

Só para ficar na segunda metade do século XIX, teremos, em 1857, O Guarani e, em 1865, Iracema, de Alencar (segundo a divisão proposta por Afrânio Coutinho, 2ª fase do Romantismo); em 1856, A confederação dos Tamoios de Gonçalves de Magalhães (Pré-Romantismo); entre 1845-1865, Álvares de Azevedo (Ultra-Romantismo) com obras todas póstumas; em 1883, Os escravos de Castro Alves (pré-Realismo ou Romantismo Social); em 1881, O Mulato de Aluísio Azevedo (Naturalismo); ainda em 1881, Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis (Inaugurando o Realismo). Alguns autores, como Virgílio Várzea de Santa Catarina, nem aparecem. Outros, como Franklin Távora do Ceará, desaparecem.

 

Nessa organização cronológica, as escolas literárias tendem a “evoluir” dialeticamente, como sugere Hegel: testando e contestando teses, sintetizando idéias, confrontando estilos e experimentações mais ou menos em cadeia, organizadas, por assim dizer, uma-atrás-da-outra, uma contestando a outra, quase que em fila indiana. Basta analisar os livros de teóricos como Massaud Moisés ou mesmo de Alfredo Bosi e percebemos tal inclinação invadindo os estudos literários e formando o que Ângela Gutièrrez chama de “caráter reprodutor dos cursos de letras”.

 

Não se sustenta o pseudoargumento de que essa é uma divisão “apenas” didática. Ora, onde mais, em que outro lugar, estudamos literatura sob outro prisma que não esse historicista? Claro que cada pesquisador, cada aluno, tendo feito uma disciplina introdutória de Teoria da Literatura em que as correntes de pensamento da teoria tenham sido estudadas ainda que superficialmente, tem a liberdade de escolher a abordagem teórica que quiser (e puder) para seus estudos literários; mas, dentro da academia, enquanto instituição, enquanto Grade Curricular, onde é que se pode estudar literatura fora deste âmbito historicista? Quando, senão com o esforço individual dos professores e o risco que correm indo contra o programa estabelecido e cobrado em exames como o “Provão” ou o “ENADE”, ou cobrado pelo sistema de ensino vigente; quando os alunos podem debruçar-se sobre a literatura de fato? Quando pode ele deleitar-se e refletir livremente, pensar a literatura sob qualquer prisma? Quando, senão também pelas felizes mas raríssimas exceções que encontramos de alunos que rompem esse fúnebre padrão de atrofiamento intelectual, por algum motivo secreto, misterioso e que deve, sei lá, pertencer à ordem mística, religiosa ou mitológica, casualista ou fatalista?

 

Além do mais, nada é “apenas” didático. O mundo é o que se sabe dele. E se eu aprendo que a literatura se divide assim, como posso tratá-la de outra maneira?

 

Precisamos re-escrever a História da Literatura Brasileira, a atual e a passada.

 

Observando minha experiência como aluno e como professor em vários níveis escolares, do Ensino Fundamental ao Ensino Superior, noto que a Teoria da Literatura (essencialmente estruturalista ainda) e a História da Literatura têm afastado cada vez mais o aluno do foco principal do estudo da literatura, que não é o estudo da estrutura dos textos ou a montagem de uma lista de temas e estilos de uma determinada época e escola literária com seus principais representantes; é antes, como quer Roland Barthes, a literatura, já que “quaisquer que sejam as escolas em nome das quais ela se declare, a literatura é absolutamente, categoricamente realista: ela é a realidade, isto é, o próprio fulgor do real” (2002, p. 18).

 

O estudo da literatura deverá ser, portanto, antes o documento literário ali, como quer Bachelard, no momento da imagem, pois segundo ele, “aqui, o passado cultural não conta; o longo trabalho de relacionar e construir pensamentos, trabalho de semanas e meses, é ineficaz. É necessário estar presente, presente à imagem no minuto da imagem” (2000, p. 01).

 

Estudar as escolas literárias não é, nunca foi e nunca será estudar literatura, mas história da literatura e só, tentando redimir-se, esse último, com migalhas literárias, trechos ou resumos de obras, como forma de ilustrar um conhecimento que se quer transcrever na alma do aluno como se ele fosse uma tábua rasa: tais escolas, com tais importantes obras para tais autores, cada um, com sua obra-prima particular. E a literatura? E o frisson de escrever? E o prazer de ler? E a reflexão sobre o homem, sobre o mundo, sobre a História dos homens, sobre a sociedade e as relações de poder escondidas sob os pequenos gestos humanos dos quais os personagens das obras são símbolos (ou arquétipos) maiores? E o estudo e a análise da alma e do pensamento humano através da literatura? E a tentativa de compreensão do que somos cada um de nós, do que fazemos aqui, de pra onde ir? Tudo isso se perde com esse ensino historicista que quer ver tudo an passant, e na ânsia de ver tudo, acaba por ver cada vez menos e, mais, a gerar o pior trauma de que um ser humano pode ser vítima: o trauma da leitura.

 

Onde está aquela vontade inicial de quando aprendemos a decifrar as primeiras letras? Onde está aquele amor que sentimos quando conseguimos por fim entender sozinhos, sem ajuda de ninguém, a primeira história? Onde se escondeu a paixão de imaginar, de enxergar a imagem por trás da palavra de quando éramos crianças e aprendíamos a ler? Como se decifrássemos o indecifrável, como se decifrássemos segredos. Perderam-se nas aulas deLiteratura em que não se vê literatura, mas História da Literatura. E mais: essa história da literatura.

 

Renè Wellek, em seu Teoria Literária, é quem sugere, quando fala de Literatura Comparada, que “a história literária tem de ser novamente escrita” (1972:59). Segundo ele, o estudo do Historicismo nasce em um contexto em que os comparativistas tentavam encontrar um viés comum entre os povos que compunham o que deveria culminar na Comunidade Européia, na vontade de forjar uma unidade entre estes povos a fim de lhes demonstrar a origem comum. Diz ele, “são notáveis feitos de investigação que ignoram os nacionalismos estabelecidos e demonstram [inclusive] convincentemente a [pretensa] unidade da civilização ocidental” (p. 59), que se estenderia inclusive até nós, descendentes diretos dos esquimós, que o diga Lima Barreto.

 

Ora, a maneira mais confiável de fazer o que Wellek propõe não seria apoiando-se nos manuais produzidos pelos teóricos supracitados senão como só mais uma análise possível da história literária? Repeti-los seria, além de desnecessário, prejudicial à revolução das idéias, ao revisionismo teórico. A maneira mais acertada de fazê-lo não é senão relendo as próprias obras literárias?

 

Pois vamos! Mãos às obras! Afinal, como disse Carlos Emílio Barreto Correa Lima, sobre o episódio do Programa Petrobrás de Cultura 2007,

Cumpre agora ao Programa Petrobrás Cultural (...) passar à próxima e natural etapa de seleção, terminada a escolha dos projetos das regiões Sul e Sudeste. Agora é a hora de iniciar os trabalhos de leitura e seleção dos projetos enviados pelos escritores da Amazônia, do Nordeste e Centro Oeste. Estamos esperando essa segunda e inevitável etapa do processo seletivo que por enquanto, acreditamos, ainda não ocorreu.

Parafraseando o autor de O romance que explodiu, agora é a hora de iniciar os trabalhos de leitura e “canonização” dos escritores da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste; hora de introduzi-los na Nova História da Literatura Brasileira que nós, a partir de hoje, escreveremos.

 

[1] Álvares de Azevedo, 22 anos; Bernardo Guimarães, 59; Casimiro de Abreu, 21; Castro Alves, 24; Cruz e Souza, 37; Fagundes Varela, 34; Gonçalves de Magalhães, 71; Augusto dos Anjos, 30; Gonçalves Dias, 41; Joaquim Manoel de Macedo, 62; José Albano, 41; Juvenal Galeno, 95; Machado de Assis, 69; Luís Gama, 52; Olavo Bilac, 43.

 

 

 

  

 

Léo Mackellene nasceu em Fortaleza-CE em 1980. Doutorando em "Educação Brasileira" pela Universidade Federal do Ceará/Universidade de Lisboa (UFC/ULisboa). Mestre em "Literatura e Práticas Sociais" pela Universidade de Brasília (UnB). Autor, dentre outros, do romance Como gota de óleo na superfície da água (Radiadora, 2017). E-mail: leomackellene@gmail.com

 
 
 

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